O amor apaixonado é uma dessas forças da vida que chegam sem pedir licença. Invade. Acelera. Desorganiza.
E, de repente, tudo aquilo que antes parecia tão sólido — rotina, compromissos, prioridades — perde o peso. Não porque as outras coisas da vida deixaram de existir, mas porque somos deslocados para outro lugar dentro da gente.
É curioso como a paixão cria ums sensação de urgência que não combina com a nossa vida cotidiana. É como se a realidade ficasse em segundo plano, desfocada.
O mundo inteiro parece mais vivo, mais intenso… e, ao mesmo tempo, incapaz de prender sua atenção.
Só uma coisa importa: a pessoa amada.
E isso pode ser tão arrebatador que lembra a fé religiosa — um encantamento te arranca da normalidade e te coloca num êxtase quase sagrado.
Mas essa força tem um preço. A paixão tende a conflitar com a vida comum. Ela exige sacrifícios, decisões inesperadas, mudanças bruscas de rota. Tira você do chão e, por um momento, faz acreditar que nada mais importa — nem obrigações, nem cautela, nem limites.
No fundo, os relacionamentos humanos sempre carregam essa tensão. São uma necessidade trágica da nossa condição.
Precisamos profundamente uns dos outros, mas nunca encontramos neles uma satisfação completa. Passamos metade da vida ávidos pelo amor e a outra metade correndo com medo dele.
Talvez seja isso que torna a paixão tão perturbadora: ela nos lembra, de forma intensa, que amar é sempre arriscar.
Que se envolver é sempre um tipo de desordem.
Que nenhum romance é inteiramente seguro — e, mesmo assim, seguimos desejando.
